Irmã Dulce 

(Sergipe, 1914 – Salvador, Bahia, 1992)   

    Nasceu em 26 de maio de 1914 com o nome de Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, segunda filha do dentista Augusto Lopes Pontes e de Dulce Maria de Souza Brito Lopes Pontes. Com 13 anos já tinha transformado a casa de sua família num centro de atendimento a pessoas carentes, quando pela primeira vez demonstrou o desejo de se dedicar à vida religiosa, o que teve apoio total da família.

   Logo após sua formatura como professora, em 8 de fevereiro de 1933, entrava para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, e pouco mais de um ano depois, em 15 de agosto de 1934, era ordenada freira, com 20 anos de idade, recebendo o noome de Irmã Dulce, em homenagem à sua mãe, que morrera em 8 de junho de 1921, aos 26 anos, quando do nascimento de Regina, sua sexta filha.

   Sua primeira missão como freira, foi ensinar em um colégio mantido pela sua congregação no bairro de Massaranduba, na cidade Baixa, em Salvador, mas o pensamento estava voltado para o trabalho com os pobres e já em 1935, dava assistência à comunidade pobre de Alagados e de Itapagipe, também na Cidade Baixa, área onde viriam a se concentrar as principais atividades dasObras Sociais Irmã Dulce.

   Os primeiros anos de trabalho da jovem missionária foram intensos. Em 1936, ela fundava a União Operária S. Francisco, primeiro movimento cristão operário da Bahia, mantido com a arrecadação de três cinemas que juntamente com Frei Hildebrando Kruthamp, haviam construíddo , através de doações - cine Roma, cine Plataforma e cine S. Caetano. Em maio de 1939, Irmã Dulce inaugura o colégio Santo Antônio, escola pública no bairro de Massaranduba para 300 crianças durante o dia e 300 adultos á noite, filhos de operários e operários.

   Nesse mesmo ano, Irmã Dulce invadiu cinco casas na Ilha dos Ratos para abrigar os doentes que havia recolhido nas ruas e o que deu motivação para isso, foi um menino gravemente enfermo lhe ter pedido para ela não deixá-lo morrer na rua e ela reconhecer que não tinha onde colocá-lo, pois alí era apenas um Posto Médico. Procurando pensar numa solução para abrigar aquele doente de malária que quase agonizava à sua frente, veio-lhe espontaneamente aos lábios: Ilha dos Ratos, um lugar alí próximo que tinha sim, umas casas vazias, trancadas e partiu prá lá com o menino, sabendo que não era possível salvá-lo, mas que não o deixaria morrer na rua. Chegando lá, como estivessem trancadas, pediu a um banhista que passava, que as arrombasse e como o moço mostrou-lhe que ele não poderia fazer isso, porque tinham dono, ela insistiu, dizendo-lhe que era dela a responsabilidade total pela ação dele, contando-lhe o caso do menino e que era Deus que estava ajudando. O arrombamento foi feito e o menino ficou lá, enquanto ela saiu para buscar uma lamparina de querosene, leite, biscoitos e a Florentina, uma conhecida que morava nas redondezas e que a seu pedido, passou toda a noite tomando conta do menino. No dia seguinte, o próprio menino foi buscar uma velha mendiga que estava morrendo de câncer debaixo de uma tamarindeira. Depois, um tuberculoso, e em pouco tempo dezenas de doentes estavam abrigados nas casas  da Ilha dos Ratos. Para alimentá-los, a jovem freira saía de porta em porta, recolhendo comida.

   Mais tarde, expulsa das casas, iniciou uma peregrinação com os seus doentes que se estendeu por vários anos, até 1949, levando-os, primeiro, para os arcos da Igreja do Bonfim, mas teve novamente que sair, dessa vez por ordem do prefeito.

   Foi para o mercado do peixe e novamente foi expulsa. Não poderia ficar com seus doentes perambulando pelas ruas, foi então à superiora da sua congregação e pediu-lhe para deixá-la abrigar seus doentes no galinheiro do convento. Não sem relutância a madre concordou, desde que Irmã Dulce encontrasse uma solução para as galinhas. Em pouco tempo o galinheiro estava limpo, colchões espalhados pelo chão e os setenta doentes abrigados. A madre superiora retornou e elogiou o empenho de Irmã Dulce, perguntando depois pelas galinhas, o que foi respondido: "Estão todas muito bem, na barriga dos meus doentes.".

   O albergue improvisado no galinheiro do Convento Santo Antônio, da Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição Mãe de Deus, foi o início da grande obra de fé erguida por Irmã Dulce, uma das primeiras organizações não governamentais do país, que conquistou o respeito e a admiração de todos os brasileiros. Ele deu origem ao Hospital Santo Antônio, centro de um complexo médico, social e educacional que mantém as portas abertas para os pobres da Bahia e de todo o Nordeste do Brasil.

   O incentivo para construir essa obra, Irmã Dulce teve do povo baiano, de brasileiros de vários estados e de personalidades internacionais. Em 1988 ela foi indicada pelo então presidente José Sarney, com o apoio da Rainha Silvia da Suécia, para o Prêmio Nobel da Paz. Oito anos antes, no dia 7 de julho, Irmã Dulce ouviu do Papa João Paulo II na sua primeira visita ao Brasil, o incentivo para proseguir com a sua obra. Os dois voltariam a se  encontrar em 20 de outubro de 1991, na segunda visita do Sumo Pontífice ao Brasil, quando ele fez questão de quebrar o rigor da sua agenda e foi ao Convento Santo Antônio visitar Irmã Dulce, já bastante debilitada em seu leito de enferma. cinco meses depois da visita do Papa, os baianos choraram a morte de Irmã Dulce. No velório na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, políticos, empresários, artistas, se misturavam à dor de milhares de pessoas simples, anônimas; muitas delas identificadas com o que poderíamos chamar de o último nível da escala social, justamente para quem Irmã Dulce dedicou sua obra.