Gandhi, Mohandas Karamchand

  (Porbandar, India, 1869 – Nova Delhi, 1948) 

    Líder espiritual e político, chamado de Mahatma (“grande alma”); arquiteto da independência da Índia e autor da filosofia e da prática da styagraha, ou resistência construtiva e não-violenta à opressão. O pensamento de Gandhi sugou de diversas fontes, inclusive a Bíblia e o Bhagavad-Gita, bem como obras mais recentes como a Desobediência Civil de Thoreau e, acima de tudo, a filosofia de Tolstoi do amor universal e da resistência passiva ao mal. Gandhi passou duas décadas na África do Sul, onde elaborou sua filosofia da ação direta não-violenta em uma série de campanhas para abolir a discriminação contra a comunidade indiana que ali vivia, e depois liderou uma cruzada de 30 anos pela independência da Índia do jugo inglês.

    Gandhi não via distinção entre o social e o espiritual, o pessoal e o político. Acreditava que toda vida faz parte de uma “essência” controladora do universo, que ele chamava de satya (“verdade”); todos somos, literalmente, um só, e devemos, portanto, amar uns aos outros tanto quanto a nós mesmos. Fundamental em sua crença era o princípio de ashimsa, não fazer mal e respeitar todos os seres vivos. Tanto a estratégia ativista quanto a filosofia religiosa de Gandhi adotavam três conceitos principais: satyagraha (termo criado por Gandhi com as palavras sânscritas “verdade” e “firmeza” ou “persistência”); awaraj (autogestão), que implicava tanto a independência nacional quanto o autocontrole; e swadeshi (“terra própria”), o desenvolvimento de economias locais auto-suficientes nas aldeias. O movimento swadeshi, simbolizado pelo ato de girar, que o próprio Gandhi realizava diariamente, incentivava o uso de roupas de algodão tecido em casa (khadi) e o boicote aos tecidos ingleses. Sua defesa do hind swaraj, ou governo local, clamava pelo fortalecimento da identidade indiana em oposição à cultura colonial e convocava um governo fundamentado nos valores e nas tradições nativas.

    Para Gandhi, a resistência não-violenta não era passiva, mas um confronto ativo da “força bruta” com a “força da alma”, que não só acabasse com o governo colonial, mas também despertasse a humanidade essencial do opressor. A satyagraha, fator decisivo na conquista da independência da Índia em 1948, foi uma aspiração de muitos anos pela qual lutou de diversas maneiras, inclusive marchas e comícios, desobediência civil, boicotes e greves de fome. O próprio Gandhi praticava uma vida ascética, incentivava a cooperação comunitária e a vida comunal (ele considerava a propriedade privada uma violação à unidade da humanidade), e lutava pela tolerância entre grupos sociais antagônicos. Em vão tentou evitar a divisão da Índia em estados dominados pelos hindus e pelos muçulmanos, e rejeitou o sistema de castas, chamando os parias ou Intocáveis de “Harijan”, ou “filhos de Deus”.